Por Luiz Eduardo Soares / Jornal GGN O jornal de todos os Brasis / GGN

Por que a resposta ao massacre do Jacarezinho é essencial? Primeiro, claro, porque as famílias dos mortos merecem o respeito que às vítimas não se concedeu. É necessário responsabilizar quem perpetrou homicídio, direta ou indiretamente, da ponta à cadeia de comando. Segundo, porque a resposta determinará, em parte, o futuro. Terceiro, porque está em jogo um dos principais desafios à democracia brasileira, ao que dela nos resta. Como as duas primeiras afirmações prescindem de explicação, passo a tratar da última, convocando a história para iluminar a conjuntura.

Durante a transição política e mesmo no período constituinte, que culminou na promulgação da Constituição, em 1988, os representantes da ditadura em declínio ainda detinham poder suficiente para, se não equilibrar a correlação de forças, ao menos impedir que o polo democrático exercesse plena hegemonia. A demonstração talvez mais ostensiva do peso do antigo regime naquelas tensas negociações foi o atendimento à exigência dos militares e das lideranças corporativistas das categorias profissionais envolvidas de que o campo institucional da segurança pública não fosse submetido ao processo de mudança. Impôs-se, então, uma reserva estratégica, preservando-o. O modelo policial forjado pela ditadura, sobretudo a partir de 1969, e único no mundo, foi mantido no artigo 144.